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Editorial - O prego da dependência
12/04/2019, às 09:26:53

No Século XIX, a pecuária foi responsável pela fixação do primeiro povoado do município em decorrência das salobras águas da região do Barreiro que ajudavam a engordar o gado. A rica natureza local fez crescer o aglomerado que emancipou-se como cidade em 1865. No decorrer dessa fixação urbana descobre-se que a água do Barreiro também faz bem à saúde humana. Então, se intensificam os fluxos migratórios de imigrantes vindos do país e outros locais do mundo para a cidade, em busca das benéficas águas radioativa e sulfurosa, além da lama de Araxá.

Essas pessoas atraídas pelas medicinais propriedades hidrominerais desenvolvem a economia local, especialmente o comércio e demais segmentos afetos à atividade turística. As pensões, pousadas, hotéis, bares e restaurantes foram surgindo para atender essa crescente demanda. À época, o presidente Getúlio Vargas e o governador de Minas Gerais, Benedito Valadares, decidiram construir o Grande Hotel e Termas como um marco nacional inspirado no turismo de saúde praticado na Europa. Em contrapartida ao investimento à época equivalente ao orçamento anual do Estado, Araxá perdeu boa parte da sua extensão territorial que um dia na história abrangeu todo o Sertão da Farinha Podre.

A perda dessa área afetou significativamente a atividade agropecuária existente no município, inúmeras famílias residentes em Araxá passaram a trabalhar e contribuir com outras cidades próximas de extensão territorial muito maior, como Perdizes, Sacramento e Ibiá. Já a inauguração do Grande Hotel e Termas em 1944 responde as atenções voltadas para o turismo que descortinava-se com grande potencial, tanto que Araxá chegou a ser uma das primeiras cidades do interior do país a contar com um aeroporto. A ideia de aliar o cassino à estância termal proporcionou dois anos de intenso fluxo turístico no GH, de pessoas que vinham jogar e traziam a família para participar de outras atividades em Araxá. E os hóspedes em tratamento de saúde passavam pelo menos uns quinzes na cidade.

A busca pela saúde, beleza e bem estar está nas raízes do turismo araxense, embora tão subjugado ao longo das últimas décadas diante do predomínio das atividades mineradoras como principal fonte de renda da economia local. A mineração hoje responde por mais de 70% da arrecadação municipal de ICMS, mas apesar deste preocupante indicador, está distante diminuir esta dependência porque houve o comodismo de todos diante das facilidades decorrentes dessa exploração.

A falta de manutenção adequada da imensa estrutura do Grande Hotel, Termas e jardins e os privilégios concedidos em torno do poder às custas do dinheiro do povo provocou a gradual decadência da estância hidromineral até os idos 1990, quando foi fechada e restaurada, um processo até o efetivo arrendamento para a iniciativa privada que durou mais de oito anos, prejudicando por demais toda a economia criativa que surgiu em torno do turismo. Até hoje, a atividade turística e a indústria criativa não têm o devido reconhecimento e apoio dos governantes.

A desatenção com o turismo continua fortemente relacionada à mineração que mantém adormecidos outros potenciais econômicos da cidade devido ao comodismo da população em torno da sua importância para a economia local. A atividade turística já estava em decadência quando surgiram as atividades mineradoras entorno da exploração do fosfato e do nióbio no município, nos idos 1960. Porém, foi um duro golpe para o turismo local que estava num estágio de convalescência. Naquela conjuntura, a mineração acontece devastando Minas Gerais que praticamente não tinha como impedir a destruição do meio ambiente com a fraca legislação ambiental existente no país e conivência de muitos que se locupletaram nessa relação entre o privado e o público.

Araxá foi pioneira com o movimento Salve a Cascatinha que culminou com a assinatura do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) denominado Pró-Araxá a ser cumprido pelas partes - poderes público e privado - em meados de 1980. O turismo passou a ser atividade econômica menos importante para o município, embora seja a vocação natural de Araxá. Falta visão aos governantes e à comunidade que também tem a sua cota parte de culpa nessa dependência que precisa ser revista com o progresso de outras atividades econômicas. Um dos sérios impactos que Araxá vivencia até hoje é essa dependência quase que geral do município em relação às empresas mineradoras.
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Clarim
Radix Comunicação e Tecnologia